segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Salsinha "tem coisas para contar", diz a mulher

Díli, Timor-Leste 08/02/2009 09:16 (LUSA)
Pedro Rosa Mendes

Díli, 08 Fev - Gastão Salsinha "ainda tem coisas para contar", afirmou a mulher do ex-tenente à Agência Lusa, antes de uma visita ao antigo líder dos peticionários das Forças Armadas de Timor-Leste.

Joaquina Lemos diz também que "o silêncio é desinquietante" sobre o que se passou há quase um ano no duplo ataque ao chefe de Estado e ao primeiro-ministro.

Joaquina Lemos vive em Ermera (oeste), no coração montanhoso do país "loromonu", nome dos dez distritos ocidentais de Timor-Leste.

Às quartas-feiras, Joaquina desce a Díli para visitar o marido na prisão.

Acompanha-a o filho do casal Salsinha, um menino pequeno que bebe café forte, "como qualquer criança de Ermera".

Gastão Salsinha é o principal arguido no processo do 11 de Fevereiro de 2008, por ter liderado o ataque à caravana onde seguia o primeiro-ministro, Xanana Gusmão.

Um outro ataque, na mesma manhã, foi dirigido pelo major rebelde Alfredo Reinado contra a residência do Presidente da República, José Ramos-Horta.

O major e um dos seus homens foram mortos no local.

Salsinha e a dezena de sobreviventes do grupo de Reinado aguardam em prisão preventiva, em Becora, em Díli, a conclusão do inquérito judicial e a acusação no "caso 11 de Fevereiro".

A poucos dias do aniversário do duplo ataque, e no dia de aniversário de Gastão Salsinha, Joaquina Lemos declarou à Lusa que José Ramos-Horta chamou há poucos dias o ex-tenente ao seu gabinete na Presidência.

"Falaram de um indulto mas o meu marido recusou porque não aceita sair em silêncio da prisão sem fazer uma declaração sobre o que aconteceu na verdade", afirmou Joaquina Lemos.

O encontro no gabinete do chefe de Estado aconteceu há semana e meia, explicou a mulher de Gastão Salsinha.

Esta semana, o Presidente da República declarou em Díli à imprensa nacional que não vai conceder indultos aos rebeldes que o atacaram a tiro, recordando que sabe a identidade do homem que disparou sobre ele.

Para Joaquina Lemos, esta declaração contraria a "oferta" que a liderança timorense sugeriu ao marido dias antes.

"Há uma ou duas pessoas que iam ficar satisfeitas com o silêncio do meu marido e dos outros. Mas para o grupo e para o povo em geral, é mais importante que falem", acrescentou a mulher de Gastão Salsinha.

Segundo a mulher de Gastão Salsinha, o ex-tenente "não tinha escolha e apenas cumpriu ordens" do major Reinado quando desceu de Ermera a Díli na madrugada do 11 de Fevereiro.

Sobre o futuro de Gastão Salsinha, Joaquina Lemos gostaria que ele não tentasse voltar às Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL).

"Como mulher, não aceito que ele volte a vestir aquele uniforme que causou a morte de tanta gente", afirmou à Lusa.

"E se ele voltasse a ser militar, será que iriam tratá-lo bem? Ou será que os colegas aproveitariam outra vez para criar problemas?", interroga.

No início de 2006, Gastão Salsinha liderou cerca de seiscentos peticionários "loromonu" que alegaram ser vítimas de discriminação pelos militares "lorosae" (originários dos três distritos orientais). A petição redundou, meses depois, em crise política e militar.

Sobre a possibilidade de uma amnistia geral que abranja a violência de 1975 a 2006, várias vezes defendida pelo Presidente da República, Joaquina Lemos é peremptória sobre "a grande diferença" de situações.

"Essa amnistia seria uma vergonha", defende Joaquina Lemos.

No imediato, a mulher de Salsinha pretende que o nome do marido seja limpo e que a justiça "diga a verdade".

"Os homens pegam em armas mas as mulheres é que são boas conselheiras", conclui a mulher do ex-tenente Gastão Salsinha. "Prefiro que o Gastão seja varredor a que ele volte a pegar numa arma".

A Lusa não obteve resposta a um pedido de entrevista ao Presidente da República sobre o 11 de Fevereiro de 2008.

Lusa/fim

1 comentário:

h correia disse...

"Falaram de um indulto mas o meu marido recusou porque não aceita sair em silêncio da prisão sem fazer uma declaração sobre o que aconteceu na verdade"

Isto prova que a política destes "líderes" que estão no poder é a de comprar o silêncio das vozes incómodas, pura e simplesmente. E aqueles que não podem ser comprados, como Ivo Rosa, são "afastados".

Tiro o meu chapéu a Salsinha pela dignidade demonstrada. Poucos seriam os que aceitariam continuar presos e recusariam um indulto em troca de calar o bico.

Só espero que nada de misterioso aconteça a Salsinha até ele ter oportunidade de fazer a tal "declaração". É que, como diz a sua mulher, "Há uma ou duas pessoas que iam ficar satisfeitas com o silêncio do meu marido e dos outros."...

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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